Já faz um bom tempo que eu quero falar sobre o assunto, mas fiquei esperando uma hora em que tudo estivesse organizado na minha cabeça. Não que agora tudo esteja, mas descobri que parte do encantamento consiste em viver gozando de todo o mistério que nos fascina e envolve, sem ficar tentando entender os pormenores.
Mas, vamos ao assunto: Elis Regina, Maria Rita, Viva Elis, Redescobrir...
Já digo logo: o texto, possivelmente, irá ficar grande, mas preciso colocar aqui o que eu sinto (ou tentar, pelo menos) e, deste modo, ajudar a colocar meus sentimentos em ordem.
Eu, como boa parte das meninas da minha idade, fui fã da Sandy. E foi (provavelmente) por ela que tive o primeiro contato com o nome que, pouco mais tarde, tomaria um significado tão grande na minha vida: Elis Regina. Aos 12 anos, durante a novelinha de Sandy na Globo, eu escutei(com o coração) Elis, pela primeira vez. Aquela voz e aquela música (Como Nossos Pais, que fazia parte da trilha sonora) não eram algo comum ao meu mundo. Me tocou e eu fui atrás.
Infelizmente, há 12 anos atrás, o acesso à internet ainda não era louco e difundido como hoje. Logo, minhas pesquisas quanto ao "mito Elis" eram limitadas. Mas cada descoberta era uma chama, um sentimento diferente que eram despertados. E assim foi fluindo.
Tempo depois, ouvi "Bola de Meia, Bola de Gude" de Milton Nascimento e a sensação foi quase a mesma. Ah!... mal sabia, eu, a ligação universal que unia esses dois monstros! Se hoje eu entendo o quanto música (de verdade) pode fazer a diferença, eu devo tudo c completamente aos dois.
Alguns poucos anos depois dessa descoberta de Elis, surge a Maria Rita cantora. Tenho um orgulho imenso de não ter me deixado levar pelos comentários imbecis e sem fundamento que me chegavam à época em que Maria decidiu tocar a vida dela tendo a música como motor. Tive a felicidade imensa de ter me apaixonado por Maria pelos simples motivos que a fizeram chegar ao lugar em que está hoje: o seu talento, entrega, paixão, profissionalismo. Se eu disser que, na primeira vez em que a vi cantar na TV, eu deixei que passassem batidas as semelhanças entre ela e a mãe, vou mentir descaradamente. O olhar, os gestos e o sorriso escancarado de nariz franzido e olhos apertados faziam com que um frio gostoso me percorresse a espinha sempre que os notava.
Por muito tempo eu lamentei o fato de não ter vivido Elis: hoje, ainda lamento, mas consegui que isso fosse convertido em amor, em saudade. Como Maria disse, muitas pessoas têm este sentimento: saudade de algo que nem foi vivido. E é isso que eu digo sempre. Saudade de um tempo que não vivi e que só chega a mim por lembranças concretas do que ficou. Elis está nos sorrindo desde lá de cima, mas o legado dela permanece vivo. Elis era tão incrível que, mais de 30 anos depois de sua partida, continua atual e viva entre nós. Mais viva, aliás, do que muitos que circulam por perto de nós, todos os dias. Mais atual e cutucando mais feridas do que os deveriam fazê-lo - e não se movem. Elis está aí, dando a cara a tapa, falando a quem quiser ouvir. Os espertos que a ouçam.
Eu sempre tive uma vontade do tamanho do mundo de ouvir Maria cantando Elis e me lembro da emoção ao sair a notícia dos shows que fariam parte do projeto Viva Elis. Minhas duas melhores, meus orgulhos, juntos, ali no palco. Eu mal consegui esperar.
Dia 10 de janeiro deste ano, me deparei com Maria Rita dentro da Saraiva do Shopping Rio Sul, aqui no Rio de Janeiro (acho que todos sabem da história, né?!). Criei coragem de abordá-la, afinal, há anos eu esperava por isso. Fui. Além de agradecê-la por tudo (e esse tudo é sem tamanho) e pedir um abraço, lembro que eu disse a ela, trêmula e com a voz meio falha o quão ansiosa eu estava por aquele show. Ela me olhou serenamente e deu um sorriso seguido de um suspiro, como quem diz "é, e lá vamos nós".
E ela foi. Eu não consigo explicar o que aconteceu no Aterro do Flamengo naquele domingo chuvoso de dia das mães. Lembranças quentes e gostosas: eu e Malena saindo de madrugada da minha casa, pra ir pra fila, carregando a faixa (que a chuva apagou), uma flor com uma cartinha e todos os sentimentos do mundo pra'quele dia que ficaria na história. O nascer do sol e a alegria de ver que veríamos Maria tão de perto eram só os detalhes de tudo o que viria pela frente.
Quando ela entrou no palco, fiquei parada, estática. Quando chegou a hora de "Como Nossos Pais", eu chorei. Eu chorei o show inteirinho (sem qualquer força de expressão exagerada). Eu segurava o queixo com a mão e o cotovelo apoiado na grade; as lágrimas se misturando à chuva e a sensação maior: a de que Maria não estava no palco sozinha.
Deem a isso o nome que quiserem: eu chamo de cumplicidade de mãe e filha. Uma filha que carrega uma responsabilidade do tamanho da grandiosidade da mãe que, por sua vez, gargalha e mostra aos céus o sorriso de orgulho ao ver que a filha aceitou e carregou a missão de forma divina.
Se a missão de Maria era fazer uma homenagem e fazer, também, com que Elis fosse revivia em nossos corações e levada a quem não a conheceu, esta foi cumprida logo de cara. Ela fez com que esse sentimento abarcasse toda uma geração, que vai passar isso adiante, como deve ser feito com nome e obra de Elis. Uma mulher que viveu mostrando a que veio e dando exemplo a tanta gente que viveu com ela e que nasceria dez, vinte, trinta anos depois que ela partisse...
Depois deste último fim de semana de Redescobrir em Belo Horizonte, saí com a alma lavada. Eu precisava de uma injeção de vida e saí de lá revigorada. Elis sempre despertou em mim uma vontade louca de viver - e Maria veio fazer isso junto.
Eu sei que tudo que eu disse ficou meio confuso. Pode ser que todos já tenham lido isso em vários lugares. Eu não li qualquer comentário em blog/site sobre o show pra tentar colocar aqui o que de mim, realmente, saísse. Não sou boa com palavras e descrição de sentimentos, como eu gostaria. Mas acho que, no final, eu só queria agradecer.
A Elis, por ter sido exatamente quem foi. Quem não a admirou ou a admira hoje precisa conhecê-la e colocar essa admiração em prática. Obrigada pela música, pelas lições e por tantos ensinamentos que você, por este coração imenso, fez com que ficassem vivos e fossem aproveitados por mim e por tantos outros que não puderam viver aqueles anos com você. Obrigada pelo maior tesouro que você deixou: Maria. Obrigada por esse presente que nos alegra, nos enche a alma e nos inunda de paz.
Maria, obrigada por ter entrado na minha vida. Obrigada por ter encarado este desafio como cantora e filha. Obrigada por ser exatamente o que é e por ter tanto da sua mãe. Lições passadas por você e por ela fariam do nosso mundo um lugar melhor se fossem ouvidas e colocadas em prática.
Obrigada pela sua voz, talento, personalidade. Pelo sorriso que tanto revive sua mãe e pela gargalhada deliciosa que não nos deixa esquecer a carga de coisa boa que te foi transferida e que hoje nos é entregue da maneira mais nobre e linda que poderia ser. Obrigada por me trazer tantos amigos através da sua música, tantos momentos lindos, como os doo último fim de semana, que me fazem afirmar com orgulho: Elis Regina e Maria Rita me dão motivos pra ser fã e ostentar seus nomes por onde quer que eu passe.
Obrigada e eu AMO vocês.

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