domingo, 20 de janeiro de 2013

Da Saudade Que Não Passa


Era aniversário de algum primo por parte do pai, e lembro que estávamos reunidos na casa dele quando a mãe contou pra todos os tios, cunhados dela, que você passou mal e foi internada em Vitória (ou foi em Guarapari? Eu não sei... o fato é que aquele mês de janeiro era esperado por vocês, já que iriam passar férias na praia). Que chato, diziam eles: sair do interior, de onde era conhecida por todos, para passar mal lá, longe de tudo. Era só uma falta de ar, a mãe me disse. Mas, logo naquela mesma noite (ou noites depois) o telefone tocou e não era uma boa notícia. Não sei se a notícia foi ruim só para mim, ou se a mãe tinha mesmo me contado toda a verdade e também fora pega de surpresa com aquele telefonema. Aliás, digo logo, a culpa é toda sua por eu ter ficado com um trauma danado de telefone tocando depois das onze da noite: se tocasse e não fosse engano, seria notícia ruim, eu bem sabia. Depois desse mês terrível, por anos, antes de dormir eu puxava a tomada do telefone para que não pudesse tocar – como se o simples fio desligado pudesse me poupar de alguma outra perda, mesmo que menos dolorida do que a sua. Pela manhã, eu o conectava novamente à tomada e o dia seguia bem: sinal de que tudo estava no seu lugar.
Eu também não consigo memorizar a data certa – aquela data em que seu irmão foi lá em casa e disse que não tinha mais jeito, mas que o tio não autorizava os médicos a desligarem a aparelhagem para que você descansasse. 19, 20 ou 21 de janeiro? Todo ano eu tinha que pegar aquela foto, distribuída na missa de sétimo dia. Lá a data não poderia estar errada. Todo ano eu tirava a caixa de fotos antigas do armário da mãe e procurava, lá no fundo, a foto em preto e branco, 3x4, em que você aparecia séria, como se soubesse o que aconteceria meses depois. Achei uma injustiça sem tamanho, aquela foto. Você séria e sem seus olhos claros, olhos que, para mim, sempre foram “olhos da Xuxa” – ou a Xuxa tinha os seus olhos, eu não sabia qual das duas opções. Outra injustiça era aquela foto tão triste no meio de uma caixa que guardava tantos momentos bons. Eu não sei o porquê de ter sido guardada lá desde que voltamos da sua casa, depois daquela semana pesada, assustadora e indescritível. O que eu sei é que todo ano, quando esses dias se aproximavam, eu tirava a foto da caixa, anotava a data num papel e o enfiava no bolso; guardava a foto lá dentro para que ninguém soubesse que fora mexida. Nos primeiros anos, eu ia sozinha à igreja rezar por você naquela data certa (meu Deus, a maldita data!). Quando maior, ia às escondidas até a Casa Paroquial e pedia a Evinha que colocasse seu nome nas intenções da missa. Eu nunca entendi por que fazia isso “na surdina”, como diz a vó, e não avisava a ninguém. Talvez fosse por receio de tocar no seu nome (nunca ninguém o fazia); talvez eu quisesse guardar isso como um segredo nosso: você via que eu repetia isso todo ano e isso acabaria virando uma coisa só da gente. À noite, quando liam seu nome na missa, eu me lembro de erguer a cabeça e respirar fundo, como se quisesse mostrar respeito ao ouvir seu nome. “Lembrai-vos, irmãs e irmãs, daqueles que foram viver junto ao Pai...”. Aquilo me revirava o estômago.
Naquela noite chuvosa que o Tio Zé foi contar que não tinha mais jeito... Ah! Me desculpa, não era o seu irmão! Era o Tio. É que os fatos, as datas e a ordem correta deles se embaralham em minhas lembranças... Prova disso é que pulei dessa noite direto para a missa de sétimo dia. Me desculpa, tá? Eu não sei organizar isso tudo, por mais que eu tente. Atropelo e troco as ordens, mas é que me orgulho bem mais de conseguir guardar com clareza aqueles doze anos que passei ao seu lado. Como eu dizia, naquela noite o pai chamou um táxi para que nos levasse até a roça, sua casa. O Tio estava de partida para Vitória, já que o carro dele era grande o suficiente caso precisasse carregar algo grande. Tanto faz, eu não quis saber o que era esse “algo grande”. Só juntei algumas roupas e fiquei do lado de fora aguardando o carro que nos levaria.
Eu estava acostumada a passar por aquela estrada à noite, mas naquele dia tudo me pareceu muito mais sombrio. As sombras que as árvores projetavam na estrada me assombravam e me diziam algo que eu não queria entender. Chegando à frente da sua casa, de cara vi algumas pessoas sentadas na calçada. A casa estava cheia e isso me incomodou. Mas eu segui e não falei nada durante aquela noite. O dia seguinte se passou, arrastado como a noite que o precedeu. Você fechou os seus olhos claros em outro estado e isso gerou uma burocracia enorme para que te liberassem. No início da madrugada seguinte, ouvi dizerem que o Tio Zé tinha chegado com você, e que seu marido, sobrinho dele e irmão da mãe, veio dirigindo o carro de vocês atrás. Eu estava no seu quarto. E a cena que eu vi nunca mais saiu da minha mente. Ao ouvir a notícia, abri cuidadosamente a janela e vi o irmão da mãe com os dedos entrelaçados, os braços apoiados sobre o teto do carro – aquele Gol vermelho, que você tanto gostou – e com a cabeça caída sobre eles. Acho que ele não chorava, só estava pensando em como encararia os três filhos ao entrar em casa, sem você. Seguido a isso, a casa ficou quieta. As vozes se calaram e ouvi um barulho de ferros batendo um nos outros e o vento soprava forte. Só depois eu descobri que eram aqueles ferros que servem de apoio para o caixão. Abri a porta do seu quarto e olhei pelo corredor à minha esquerda – que dava para a sala, onde você havia sido colocada – e vi que havia muita gente. Madrugada longa, perguntei a mãe se eu poderia ir lá para te ver. Ela fez um sinal afirmativo e eu fui. A sala estava vazia, exceto por um vizinho qualquer que eu não conhecia e isso me encorajou. Me aproximei do caixão e lá estava você: serena, com a pele mais clara do que de costume. Eu nunca tinha te visto com os olhos fechados... E foi estranho. Eu só tinha ido a um velório uma vez, mas não havia chegado tão perto como eu estava de você. Timidamente, passei a mão sobre seus cabelos que caíam pela testa. De leve. Não queria que minha mão sentisse o frio do seu corpo quieto. Só os cabelos. E foi essa a última imagem que guardei de você. Depois disso, saí de lá e ficamos na outra sala: eu e meus primos, seus filhos, ouvindo as piadas do Tio João Gordo, que amenizavam um pouco aquelas vozes que sussurravam pelos corredores da sua casa e comentavam a tragédia que ali tinha se abatido.
Assim, a noite passou. Minutos antes de sair o cortejo que te levaria, a Rúbia chegou. Ela é sobrinha do pai, você sabe. Não tinha teu sangue – e nem eu, já que você era cunhada da mãe – e nem tanta ligação, mas foi até sua casa. Alguém comentou que ela havia chegado e fui ver. Ao me avistar, ela correu, me abraçou e disse: “Ah! Meu amor...”. E eu desabei. Pela primeira vez, eu desabei. Chorava e algo doía. A sensação de que por dentro eu estava toda revirada me atacou ainda mais durante aquele abraço. Corri de volta para o seu quarto, ao lado da sua cama, e me joguei em prantos sobre a cama que a mãe tinha feito para mim, no chão. Eu não quis ir ao enterro. Chovia muito e a ideia de te ver descer àquele buraco me aterrorizava. Me dei por satisfeita com a sensação dos fios grossos e ondulados do seu cabelo na minha pele.
Passamos os sete primeiros dias na sua casa. A mãe não queria deixar o irmão e os sobrinhos sozinhos, então ficamos. Eu seu que pode parecer egoísmo, mas eu queria sair de lá o mais rápido possível. As flores de plástico na sala, os enfeites sobre a mesinha do aparelho de som, a cor dos sofás – tudo me lembrava você e a dor era sem tamanho.
Eu não consigo lembrar como foram meus dias depois dessa primeira semana e nem como as coisas foram voltando ao normal. O que eu sei é que você me fez mais falta do que eu poderia imaginar e que a saudade doía de um modo como eu nunca havia experimentado.
Até hoje abro um sorriso quando a mãe conta que, no meu primeiro mês de vida, perguntavam se eu era sua filha: a pele branquinha, os cabelos bem claros – embora, depois, os meus houvessem escurecido. E isso me faz lembrar outra coisa engraçada: quando eu perguntei a mãe se eu poderia ser neta do seu pai. Eu não conheci meus avôs e só Deus sabe o que eu daria para ter tido tal felicidade; portanto, ser neta do seu pai (logo do seu pai!) seria um sonho realizado. É... você não sabe o quanto eu adorava aquelas vezes em que você me juntava aos seus meninos e me levava para a casa dele. Ele e sua mãe não faziam distinção alguma entre mim e seus filhos, e talvez por isso eu quisesse ser oficialmente adotada como neta deles. E aquele terreiro em que seu tio lavava o café colhido?! Meu Deus, como eu ficava maravilhada quando você levava a gente pra lá e fazíamos daqueles canos enormes, que saíam das paredes de concreto do terreiro, nossa cachoeira. Depois, você nos colocava na carroceria da velha Toyota azul e voltávamos para a casa, como se estivéssemos passado o dia todo em clima de férias. E os casamentos que aconteciam na roça? Eu me amarrava em saber que você sabia que eu adorava os almoços que davam e me chamava, sempre, para que eu fosse com você. E, cá entre nós, a gente se esbaldava, né? Você arrumava sempre um tronco de árvore pelos quintais para que eu pudesse me sentar e deliciar toda aquela comida.
A primeira vez em que você me levou para a roça sem a mãe – eu não dormia sem ela por nada! -, dela eu me lembro bem. A gente chegou na sua casa e chovia, o que foi um prato cheio para que eu e os meninos corrêssemos para fora e fizéssemos uma guerra de lama como eu jamais havia feito. Ai, que bronca você nos deu! Chegou o rosto na janela, franziu as sobrancelhas claras e gritou para que a gente corresse logo pro banho: “onde já se viu?!”... Hoje dou risada, mas naquele dia você me deixou com um medo sem tamanho! Eu nunca te falei, mas essa sua bronca fez com que eu tivesse ainda mais vontade de voltar para casa. E foi o que eu fiz. No dia seguinte, a vó me levou de volta. E você insistiu para que eu ficasse, e eu sabia que era de coração e nem isso me prendeu. É muita lembrança guardada. Ah! Você me ensinou a bordar e, depois de algumas aulas, me deu uma toalha de mesa que você começou a fazer. Me disse para continuar, fazer o que faltava e te mostrar. Daí, você finalizaria o crochê – eu nunca aprendi, esse – e a toalha estaria pronta. Estou sem graça, mas vou te contar: aquela toalha está guardada. Eu nunca mais tive coragem de pegar e terminar. Quem a bordaria depois? Eu achava que terminar aquilo seria até falta de respeito. Hoje eu vejo que terminá-la seria dolorido. Mas suas aulas não foram em vão, tá? A Bruna, minha prima, teve dois filhos lindos, e a segunda filha, Diana, dela eu sou madrinha. No dia do batismo, dei a ela de presente um quadro grande, com a oração do Anjo da Guarda. Eu, orgulhosa, disse que havia feito sem a ajuda de ninguém. Que eu tinha feito todo o trabalho em ponto cruz porque você me ensinou um dia. Viu? Eu não terminei a sua toalha, mas consegui finalizar algo que justificasse aquelas tardes em que eu passava te atormentando para que me mostrasse como se fazia.
Ai, como sinto saudade! Eu acho que já não choro mais – exceto há uns três anos, quando sua filha se casou e, repentinamente, chorei feito criança no meio da festa. Eu disse para a vó que era dor de cabeça, que logo passaria. Mas o que eu senti, ali, foi sua presença. E nunca tinha sido tão forte, desde que você se foi. Depois disso, acho que não chorei, só senti mesmo saudade. E esse “só” é tão grande quanto os gritos que você dava no terreiro quando a gente aprontava.
Eu só tenho duas fotos suas – em péssima qualidade, nem dá para ver seus olhos! – e sempre quis pedir a vó que pegasse alguma e me emprestasse, sem ninguém ver, para que eu copiasse. Aliás, meu pedido seria ainda mais específico: eu queria uma foto do seu casamento. Eu lembro que você me mostrou uma em que sorria, sorria de verdade, e o seu queixo ficava marcado pelo sorriso repuxando a pele, e você estava fazendo uma pose como de quem estava prestes a sair do carro... Eu nunca pedi, é verdade. Não tenho coragem. Mas sabe o que eu fiz? Da última vez em que fui ver seus pais (a dor de cada lembrança sua nos cantos daquela casa tão simples, no meio do mato, porém, tão aconchegante ainda dói do mesmo jeito, mas eu ainda continuo visitando os dois, viu?), eu aproveitei um minuto de distração da sua mãe para tirar foto de um desenho seu que ela tem na parede. E o desenho foi feito por alguém que tinha em mãos aquela mesma foto 3x4 da bendita lembrança da missa. Pelo menos ele colocou a sua blusa num tom rosado, a pele corada. Mas isso não substitui a foto que eu tanto queria.
As coisas praquele lado não ficaram muito boas, sabe? Em nada aquilo se parece com a época em que eu tinha você. Desde mudanças na arrumação da sala até as desavenças... às vezes, não mais reconheço lá aquele lugar que me fez tão feliz. Mas essas coisas acontecem, né?
Só queria mesmo dizer que eu sinto saudade. Eu sempre me esbarro em alguém na rua com os seus olhos, seu jeito de andar, seu cabelo. Bate uma saudade e eu quase consigo sentir seu cheiro. Mas logo a sensação passa e a vida volta. Sem você. E eu sigo sentindo sua. Você sempre comentava que tinha curiosidade de saber como seríamos depois dos dezoito, vinte anos. Não sei se o que eu me tornei te deixaria feliz ou, pelo menos, satisfeita. O que eu sei é que a dor por você não poder ver é tão grande quanto a minha vontade de te contar tudo que me acontece, contar tudo, sentada lá àquela mesa do café, ouvindo sua gargalhada deliciosa. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Da senhorinha de décadas distantes

Uma das minhas maiores distrações – ou diversões, como queiram – sempre será observar as pessoas. Em todos os lugares, de todas as idades. O ser humano é algo muito curioso e engraçado para passar despercebido diante dos meus olhos. É uma distração tão natural quanto o ato de respirar. Quando percebo, estou encarando alguém e achando muita graça no que qualquer pessoa não vê coisa alguma.
Pois bem: hoje de manhã resolvi ir ao mercado. Filas cheias, corredores abarrotados e aquela confusão de mercado num sábado de manhã. Estava empurrando o carrinho e procurando um caixa que estivesse mais vazio. Ou menos cheio, pelo menos. Foi quando vi uma senhorinha na fila e, imediatamente, me coloquei atrás dela, mesmo a fila dela estando consideravelmente maior.
Durante minhas observações, encontrar pessoas parecendo personagens saídos de livros ou filmes de que eu gosto tanto é tão encantador quanto ver, ao acaso, uma estrela cadente ao se observar o céu com um telescópio. E a senhorinha se encaixava nisso.
Ela aparentava ter seus 80 anos. Os cabelos bem grisalhos, mas com algo ainda de cor. A pele clarinha, marcada por décadas, e o queixo bem desenhado, como se feito à mão. Usava óculos grandes, com duas lentes muito grossas, mas que me permitiram ver os olhos azuis cristalinos. Usava um vestidinho de algodão, cor marrom; muito florido, porém bem discreto. As meias eram de um azul bem escuro, parecidas com as meias que meu pai usa quando está vestido de modo muito social – contrastando fortemente com os chinelinhos pretos, abertos atrás (ou que ela não calçava corretamente, pisando no que seriam as correias... não consegui ver bem). O perfume que ela exalava parecia extraído de uma sala antiga, decorada com móveis de madeira maciça e cortinas empoeiradas. Ela segurava o carrinho de compras, cheio de pães. Só pães: franceses, doces, com creme, de milho, torrados. Consegui imaginar a senhorinha, toda fofa, recebendo os netinhos, num sábado à tarde, com a mesa repleta daquelas gostosuras. Ou as amigas, talvez, para colocar em dia a conversa e relembrar tantas coisas já vividas. O fato é que eu não conseguia tirar os olhos dela. Não sei qual o tipo de encantamento ela exerceu sobre mim, mas aquela figurinha parecida com personagem de uma narrativa de época fez com que os dez ou quinze minutos que passei em pé na fila do mercado me fizessem viajar num piscar de olhos. E ela percebeu algo. Olhou fixamente, com uma mão segurando a bengala e a outra o puxador do carrinho, e me deu um sorriso agradável, leve, como o de uma quase-avó-desconhecida no alto de sua terna e automática doçura.