domingo, 20 de janeiro de 2013

Da Saudade Que Não Passa


Era aniversário de algum primo por parte do pai, e lembro que estávamos reunidos na casa dele quando a mãe contou pra todos os tios, cunhados dela, que você passou mal e foi internada em Vitória (ou foi em Guarapari? Eu não sei... o fato é que aquele mês de janeiro era esperado por vocês, já que iriam passar férias na praia). Que chato, diziam eles: sair do interior, de onde era conhecida por todos, para passar mal lá, longe de tudo. Era só uma falta de ar, a mãe me disse. Mas, logo naquela mesma noite (ou noites depois) o telefone tocou e não era uma boa notícia. Não sei se a notícia foi ruim só para mim, ou se a mãe tinha mesmo me contado toda a verdade e também fora pega de surpresa com aquele telefonema. Aliás, digo logo, a culpa é toda sua por eu ter ficado com um trauma danado de telefone tocando depois das onze da noite: se tocasse e não fosse engano, seria notícia ruim, eu bem sabia. Depois desse mês terrível, por anos, antes de dormir eu puxava a tomada do telefone para que não pudesse tocar – como se o simples fio desligado pudesse me poupar de alguma outra perda, mesmo que menos dolorida do que a sua. Pela manhã, eu o conectava novamente à tomada e o dia seguia bem: sinal de que tudo estava no seu lugar.
Eu também não consigo memorizar a data certa – aquela data em que seu irmão foi lá em casa e disse que não tinha mais jeito, mas que o tio não autorizava os médicos a desligarem a aparelhagem para que você descansasse. 19, 20 ou 21 de janeiro? Todo ano eu tinha que pegar aquela foto, distribuída na missa de sétimo dia. Lá a data não poderia estar errada. Todo ano eu tirava a caixa de fotos antigas do armário da mãe e procurava, lá no fundo, a foto em preto e branco, 3x4, em que você aparecia séria, como se soubesse o que aconteceria meses depois. Achei uma injustiça sem tamanho, aquela foto. Você séria e sem seus olhos claros, olhos que, para mim, sempre foram “olhos da Xuxa” – ou a Xuxa tinha os seus olhos, eu não sabia qual das duas opções. Outra injustiça era aquela foto tão triste no meio de uma caixa que guardava tantos momentos bons. Eu não sei o porquê de ter sido guardada lá desde que voltamos da sua casa, depois daquela semana pesada, assustadora e indescritível. O que eu sei é que todo ano, quando esses dias se aproximavam, eu tirava a foto da caixa, anotava a data num papel e o enfiava no bolso; guardava a foto lá dentro para que ninguém soubesse que fora mexida. Nos primeiros anos, eu ia sozinha à igreja rezar por você naquela data certa (meu Deus, a maldita data!). Quando maior, ia às escondidas até a Casa Paroquial e pedia a Evinha que colocasse seu nome nas intenções da missa. Eu nunca entendi por que fazia isso “na surdina”, como diz a vó, e não avisava a ninguém. Talvez fosse por receio de tocar no seu nome (nunca ninguém o fazia); talvez eu quisesse guardar isso como um segredo nosso: você via que eu repetia isso todo ano e isso acabaria virando uma coisa só da gente. À noite, quando liam seu nome na missa, eu me lembro de erguer a cabeça e respirar fundo, como se quisesse mostrar respeito ao ouvir seu nome. “Lembrai-vos, irmãs e irmãs, daqueles que foram viver junto ao Pai...”. Aquilo me revirava o estômago.
Naquela noite chuvosa que o Tio Zé foi contar que não tinha mais jeito... Ah! Me desculpa, não era o seu irmão! Era o Tio. É que os fatos, as datas e a ordem correta deles se embaralham em minhas lembranças... Prova disso é que pulei dessa noite direto para a missa de sétimo dia. Me desculpa, tá? Eu não sei organizar isso tudo, por mais que eu tente. Atropelo e troco as ordens, mas é que me orgulho bem mais de conseguir guardar com clareza aqueles doze anos que passei ao seu lado. Como eu dizia, naquela noite o pai chamou um táxi para que nos levasse até a roça, sua casa. O Tio estava de partida para Vitória, já que o carro dele era grande o suficiente caso precisasse carregar algo grande. Tanto faz, eu não quis saber o que era esse “algo grande”. Só juntei algumas roupas e fiquei do lado de fora aguardando o carro que nos levaria.
Eu estava acostumada a passar por aquela estrada à noite, mas naquele dia tudo me pareceu muito mais sombrio. As sombras que as árvores projetavam na estrada me assombravam e me diziam algo que eu não queria entender. Chegando à frente da sua casa, de cara vi algumas pessoas sentadas na calçada. A casa estava cheia e isso me incomodou. Mas eu segui e não falei nada durante aquela noite. O dia seguinte se passou, arrastado como a noite que o precedeu. Você fechou os seus olhos claros em outro estado e isso gerou uma burocracia enorme para que te liberassem. No início da madrugada seguinte, ouvi dizerem que o Tio Zé tinha chegado com você, e que seu marido, sobrinho dele e irmão da mãe, veio dirigindo o carro de vocês atrás. Eu estava no seu quarto. E a cena que eu vi nunca mais saiu da minha mente. Ao ouvir a notícia, abri cuidadosamente a janela e vi o irmão da mãe com os dedos entrelaçados, os braços apoiados sobre o teto do carro – aquele Gol vermelho, que você tanto gostou – e com a cabeça caída sobre eles. Acho que ele não chorava, só estava pensando em como encararia os três filhos ao entrar em casa, sem você. Seguido a isso, a casa ficou quieta. As vozes se calaram e ouvi um barulho de ferros batendo um nos outros e o vento soprava forte. Só depois eu descobri que eram aqueles ferros que servem de apoio para o caixão. Abri a porta do seu quarto e olhei pelo corredor à minha esquerda – que dava para a sala, onde você havia sido colocada – e vi que havia muita gente. Madrugada longa, perguntei a mãe se eu poderia ir lá para te ver. Ela fez um sinal afirmativo e eu fui. A sala estava vazia, exceto por um vizinho qualquer que eu não conhecia e isso me encorajou. Me aproximei do caixão e lá estava você: serena, com a pele mais clara do que de costume. Eu nunca tinha te visto com os olhos fechados... E foi estranho. Eu só tinha ido a um velório uma vez, mas não havia chegado tão perto como eu estava de você. Timidamente, passei a mão sobre seus cabelos que caíam pela testa. De leve. Não queria que minha mão sentisse o frio do seu corpo quieto. Só os cabelos. E foi essa a última imagem que guardei de você. Depois disso, saí de lá e ficamos na outra sala: eu e meus primos, seus filhos, ouvindo as piadas do Tio João Gordo, que amenizavam um pouco aquelas vozes que sussurravam pelos corredores da sua casa e comentavam a tragédia que ali tinha se abatido.
Assim, a noite passou. Minutos antes de sair o cortejo que te levaria, a Rúbia chegou. Ela é sobrinha do pai, você sabe. Não tinha teu sangue – e nem eu, já que você era cunhada da mãe – e nem tanta ligação, mas foi até sua casa. Alguém comentou que ela havia chegado e fui ver. Ao me avistar, ela correu, me abraçou e disse: “Ah! Meu amor...”. E eu desabei. Pela primeira vez, eu desabei. Chorava e algo doía. A sensação de que por dentro eu estava toda revirada me atacou ainda mais durante aquele abraço. Corri de volta para o seu quarto, ao lado da sua cama, e me joguei em prantos sobre a cama que a mãe tinha feito para mim, no chão. Eu não quis ir ao enterro. Chovia muito e a ideia de te ver descer àquele buraco me aterrorizava. Me dei por satisfeita com a sensação dos fios grossos e ondulados do seu cabelo na minha pele.
Passamos os sete primeiros dias na sua casa. A mãe não queria deixar o irmão e os sobrinhos sozinhos, então ficamos. Eu seu que pode parecer egoísmo, mas eu queria sair de lá o mais rápido possível. As flores de plástico na sala, os enfeites sobre a mesinha do aparelho de som, a cor dos sofás – tudo me lembrava você e a dor era sem tamanho.
Eu não consigo lembrar como foram meus dias depois dessa primeira semana e nem como as coisas foram voltando ao normal. O que eu sei é que você me fez mais falta do que eu poderia imaginar e que a saudade doía de um modo como eu nunca havia experimentado.
Até hoje abro um sorriso quando a mãe conta que, no meu primeiro mês de vida, perguntavam se eu era sua filha: a pele branquinha, os cabelos bem claros – embora, depois, os meus houvessem escurecido. E isso me faz lembrar outra coisa engraçada: quando eu perguntei a mãe se eu poderia ser neta do seu pai. Eu não conheci meus avôs e só Deus sabe o que eu daria para ter tido tal felicidade; portanto, ser neta do seu pai (logo do seu pai!) seria um sonho realizado. É... você não sabe o quanto eu adorava aquelas vezes em que você me juntava aos seus meninos e me levava para a casa dele. Ele e sua mãe não faziam distinção alguma entre mim e seus filhos, e talvez por isso eu quisesse ser oficialmente adotada como neta deles. E aquele terreiro em que seu tio lavava o café colhido?! Meu Deus, como eu ficava maravilhada quando você levava a gente pra lá e fazíamos daqueles canos enormes, que saíam das paredes de concreto do terreiro, nossa cachoeira. Depois, você nos colocava na carroceria da velha Toyota azul e voltávamos para a casa, como se estivéssemos passado o dia todo em clima de férias. E os casamentos que aconteciam na roça? Eu me amarrava em saber que você sabia que eu adorava os almoços que davam e me chamava, sempre, para que eu fosse com você. E, cá entre nós, a gente se esbaldava, né? Você arrumava sempre um tronco de árvore pelos quintais para que eu pudesse me sentar e deliciar toda aquela comida.
A primeira vez em que você me levou para a roça sem a mãe – eu não dormia sem ela por nada! -, dela eu me lembro bem. A gente chegou na sua casa e chovia, o que foi um prato cheio para que eu e os meninos corrêssemos para fora e fizéssemos uma guerra de lama como eu jamais havia feito. Ai, que bronca você nos deu! Chegou o rosto na janela, franziu as sobrancelhas claras e gritou para que a gente corresse logo pro banho: “onde já se viu?!”... Hoje dou risada, mas naquele dia você me deixou com um medo sem tamanho! Eu nunca te falei, mas essa sua bronca fez com que eu tivesse ainda mais vontade de voltar para casa. E foi o que eu fiz. No dia seguinte, a vó me levou de volta. E você insistiu para que eu ficasse, e eu sabia que era de coração e nem isso me prendeu. É muita lembrança guardada. Ah! Você me ensinou a bordar e, depois de algumas aulas, me deu uma toalha de mesa que você começou a fazer. Me disse para continuar, fazer o que faltava e te mostrar. Daí, você finalizaria o crochê – eu nunca aprendi, esse – e a toalha estaria pronta. Estou sem graça, mas vou te contar: aquela toalha está guardada. Eu nunca mais tive coragem de pegar e terminar. Quem a bordaria depois? Eu achava que terminar aquilo seria até falta de respeito. Hoje eu vejo que terminá-la seria dolorido. Mas suas aulas não foram em vão, tá? A Bruna, minha prima, teve dois filhos lindos, e a segunda filha, Diana, dela eu sou madrinha. No dia do batismo, dei a ela de presente um quadro grande, com a oração do Anjo da Guarda. Eu, orgulhosa, disse que havia feito sem a ajuda de ninguém. Que eu tinha feito todo o trabalho em ponto cruz porque você me ensinou um dia. Viu? Eu não terminei a sua toalha, mas consegui finalizar algo que justificasse aquelas tardes em que eu passava te atormentando para que me mostrasse como se fazia.
Ai, como sinto saudade! Eu acho que já não choro mais – exceto há uns três anos, quando sua filha se casou e, repentinamente, chorei feito criança no meio da festa. Eu disse para a vó que era dor de cabeça, que logo passaria. Mas o que eu senti, ali, foi sua presença. E nunca tinha sido tão forte, desde que você se foi. Depois disso, acho que não chorei, só senti mesmo saudade. E esse “só” é tão grande quanto os gritos que você dava no terreiro quando a gente aprontava.
Eu só tenho duas fotos suas – em péssima qualidade, nem dá para ver seus olhos! – e sempre quis pedir a vó que pegasse alguma e me emprestasse, sem ninguém ver, para que eu copiasse. Aliás, meu pedido seria ainda mais específico: eu queria uma foto do seu casamento. Eu lembro que você me mostrou uma em que sorria, sorria de verdade, e o seu queixo ficava marcado pelo sorriso repuxando a pele, e você estava fazendo uma pose como de quem estava prestes a sair do carro... Eu nunca pedi, é verdade. Não tenho coragem. Mas sabe o que eu fiz? Da última vez em que fui ver seus pais (a dor de cada lembrança sua nos cantos daquela casa tão simples, no meio do mato, porém, tão aconchegante ainda dói do mesmo jeito, mas eu ainda continuo visitando os dois, viu?), eu aproveitei um minuto de distração da sua mãe para tirar foto de um desenho seu que ela tem na parede. E o desenho foi feito por alguém que tinha em mãos aquela mesma foto 3x4 da bendita lembrança da missa. Pelo menos ele colocou a sua blusa num tom rosado, a pele corada. Mas isso não substitui a foto que eu tanto queria.
As coisas praquele lado não ficaram muito boas, sabe? Em nada aquilo se parece com a época em que eu tinha você. Desde mudanças na arrumação da sala até as desavenças... às vezes, não mais reconheço lá aquele lugar que me fez tão feliz. Mas essas coisas acontecem, né?
Só queria mesmo dizer que eu sinto saudade. Eu sempre me esbarro em alguém na rua com os seus olhos, seu jeito de andar, seu cabelo. Bate uma saudade e eu quase consigo sentir seu cheiro. Mas logo a sensação passa e a vida volta. Sem você. E eu sigo sentindo sua. Você sempre comentava que tinha curiosidade de saber como seríamos depois dos dezoito, vinte anos. Não sei se o que eu me tornei te deixaria feliz ou, pelo menos, satisfeita. O que eu sei é que a dor por você não poder ver é tão grande quanto a minha vontade de te contar tudo que me acontece, contar tudo, sentada lá àquela mesa do café, ouvindo sua gargalhada deliciosa. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Da senhorinha de décadas distantes

Uma das minhas maiores distrações – ou diversões, como queiram – sempre será observar as pessoas. Em todos os lugares, de todas as idades. O ser humano é algo muito curioso e engraçado para passar despercebido diante dos meus olhos. É uma distração tão natural quanto o ato de respirar. Quando percebo, estou encarando alguém e achando muita graça no que qualquer pessoa não vê coisa alguma.
Pois bem: hoje de manhã resolvi ir ao mercado. Filas cheias, corredores abarrotados e aquela confusão de mercado num sábado de manhã. Estava empurrando o carrinho e procurando um caixa que estivesse mais vazio. Ou menos cheio, pelo menos. Foi quando vi uma senhorinha na fila e, imediatamente, me coloquei atrás dela, mesmo a fila dela estando consideravelmente maior.
Durante minhas observações, encontrar pessoas parecendo personagens saídos de livros ou filmes de que eu gosto tanto é tão encantador quanto ver, ao acaso, uma estrela cadente ao se observar o céu com um telescópio. E a senhorinha se encaixava nisso.
Ela aparentava ter seus 80 anos. Os cabelos bem grisalhos, mas com algo ainda de cor. A pele clarinha, marcada por décadas, e o queixo bem desenhado, como se feito à mão. Usava óculos grandes, com duas lentes muito grossas, mas que me permitiram ver os olhos azuis cristalinos. Usava um vestidinho de algodão, cor marrom; muito florido, porém bem discreto. As meias eram de um azul bem escuro, parecidas com as meias que meu pai usa quando está vestido de modo muito social – contrastando fortemente com os chinelinhos pretos, abertos atrás (ou que ela não calçava corretamente, pisando no que seriam as correias... não consegui ver bem). O perfume que ela exalava parecia extraído de uma sala antiga, decorada com móveis de madeira maciça e cortinas empoeiradas. Ela segurava o carrinho de compras, cheio de pães. Só pães: franceses, doces, com creme, de milho, torrados. Consegui imaginar a senhorinha, toda fofa, recebendo os netinhos, num sábado à tarde, com a mesa repleta daquelas gostosuras. Ou as amigas, talvez, para colocar em dia a conversa e relembrar tantas coisas já vividas. O fato é que eu não conseguia tirar os olhos dela. Não sei qual o tipo de encantamento ela exerceu sobre mim, mas aquela figurinha parecida com personagem de uma narrativa de época fez com que os dez ou quinze minutos que passei em pé na fila do mercado me fizessem viajar num piscar de olhos. E ela percebeu algo. Olhou fixamente, com uma mão segurando a bengala e a outra o puxador do carrinho, e me deu um sorriso agradável, leve, como o de uma quase-avó-desconhecida no alto de sua terna e automática doçura.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Elis Regina, Maria Rita e a mistura de emoções.

Já faz um bom tempo que eu quero falar sobre o assunto, mas fiquei esperando uma hora em que tudo estivesse organizado na minha cabeça. Não que agora tudo esteja, mas descobri que parte do encantamento consiste em viver gozando de todo o mistério que nos fascina e envolve, sem ficar tentando entender os pormenores.
Mas, vamos ao assunto: Elis Regina, Maria Rita, Viva Elis, Redescobrir...
Já digo logo: o texto, possivelmente, irá ficar grande, mas preciso colocar aqui o que eu sinto (ou tentar, pelo menos) e, deste modo, ajudar a colocar meus sentimentos em ordem.

Eu, como boa parte das meninas da minha idade, fui fã da Sandy. E foi (provavelmente) por ela que tive o primeiro contato com o nome que, pouco mais tarde, tomaria um significado tão grande na minha vida: Elis Regina. Aos 12 anos, durante a novelinha de Sandy na Globo, eu escutei(com o coração) Elis, pela primeira vez. Aquela voz e aquela música (Como Nossos Pais, que fazia parte da trilha sonora) não eram algo comum ao meu mundo. Me tocou e eu fui atrás.

Infelizmente, há 12 anos atrás, o acesso à internet ainda não era louco e difundido como hoje. Logo, minhas pesquisas quanto ao "mito Elis" eram limitadas. Mas cada descoberta era uma chama, um sentimento diferente que eram despertados. E assim foi fluindo.

Tempo depois, ouvi "Bola de Meia, Bola de Gude" de Milton Nascimento e a sensação foi quase a mesma. Ah!... mal sabia, eu, a ligação universal que unia esses dois monstros! Se hoje eu entendo o quanto música (de verdade) pode fazer a diferença, eu devo tudo c completamente aos dois.

Alguns poucos anos depois dessa descoberta de Elis, surge a Maria Rita cantora. Tenho um orgulho imenso de não ter me deixado levar pelos comentários imbecis e sem fundamento que me chegavam à época em que Maria decidiu tocar a vida dela tendo a música como motor. Tive a felicidade imensa de ter me apaixonado por Maria pelos simples motivos que a fizeram chegar ao lugar em que está hoje: o seu talento, entrega, paixão, profissionalismo. Se eu disser que, na primeira vez em que a vi cantar na TV, eu deixei que passassem batidas as semelhanças entre ela e a mãe, vou mentir descaradamente. O olhar, os gestos e o sorriso escancarado de nariz franzido e olhos apertados faziam com que um frio gostoso me percorresse a espinha sempre que os notava.


Por muito tempo eu lamentei o fato de não ter vivido Elis: hoje, ainda lamento, mas consegui que isso fosse convertido em amor, em saudade. Como Maria disse, muitas pessoas têm este sentimento: saudade de algo que nem foi vivido. E é isso que eu digo sempre. Saudade de um tempo que não vivi e que só chega a mim por lembranças concretas do que ficou. Elis está nos sorrindo desde lá de cima, mas o legado dela permanece vivo. Elis era tão incrível que, mais de 30 anos depois de sua partida, continua atual e viva entre nós. Mais viva, aliás, do que muitos que circulam por perto de nós, todos os dias. Mais atual e cutucando mais feridas do que os deveriam fazê-lo - e não se movem. Elis está aí, dando a cara a tapa, falando a quem quiser ouvir. Os espertos que a ouçam.

Eu sempre tive uma vontade do tamanho do mundo de ouvir Maria cantando Elis e me lembro da emoção ao sair a notícia dos shows que fariam parte do projeto Viva Elis. Minhas duas melhores, meus orgulhos, juntos, ali no palco. Eu mal consegui esperar.
Dia 10 de janeiro deste ano, me deparei com Maria Rita dentro da Saraiva do Shopping Rio Sul, aqui no Rio de Janeiro (acho que todos sabem da história, né?!). Criei coragem de abordá-la, afinal, há anos eu esperava por isso. Fui. Além de agradecê-la por tudo (e esse tudo é sem tamanho) e pedir um abraço, lembro que eu disse a ela, trêmula e com a voz meio falha o quão ansiosa eu estava por aquele show. Ela me olhou serenamente e deu um sorriso seguido de um suspiro, como quem diz "é, e lá vamos nós".

E ela foi. Eu não consigo explicar o que aconteceu no Aterro do Flamengo naquele domingo chuvoso de dia das mães. Lembranças quentes e gostosas: eu e Malena saindo de madrugada da minha casa, pra ir pra fila, carregando a faixa (que a chuva apagou), uma flor com uma cartinha e todos os sentimentos do mundo pra'quele dia que ficaria na história. O nascer do sol e a alegria de ver que veríamos Maria tão de perto eram só os detalhes de tudo o que viria pela frente.
Quando ela entrou no palco, fiquei parada, estática. Quando chegou a hora de "Como Nossos Pais", eu chorei. Eu chorei o show inteirinho (sem qualquer força de expressão exagerada). Eu segurava o queixo com a mão e o cotovelo apoiado na grade; as lágrimas se misturando à chuva e a sensação maior: a de que Maria não estava no palco sozinha.
Deem a isso o nome que quiserem: eu chamo de cumplicidade de mãe e filha. Uma filha que carrega uma responsabilidade do tamanho da grandiosidade da mãe que, por sua vez, gargalha e mostra aos céus o sorriso de orgulho ao ver que a filha aceitou e carregou a missão de forma divina.

Se a missão de Maria era fazer uma homenagem e fazer, também, com que Elis fosse revivia em nossos corações e levada a quem não a conheceu, esta foi cumprida logo de cara. Ela fez com que esse sentimento abarcasse toda uma geração, que vai passar isso adiante, como deve ser feito com nome e obra de Elis. Uma mulher que viveu mostrando a que veio e dando exemplo a tanta gente que viveu com ela e que nasceria dez, vinte, trinta anos depois que ela partisse...

Depois deste último fim de semana de Redescobrir em Belo Horizonte, saí com a alma lavada. Eu precisava de uma injeção de vida e saí de lá revigorada. Elis sempre despertou em mim uma vontade louca de viver - e Maria veio fazer isso junto.


Eu sei que tudo que eu disse ficou meio confuso. Pode ser que todos já tenham lido isso em vários lugares. Eu não li qualquer comentário em blog/site sobre o show pra tentar colocar aqui o que de mim, realmente, saísse. Não sou boa com palavras e descrição de sentimentos, como eu gostaria. Mas acho que, no final, eu só queria agradecer.


A Elis, por ter sido exatamente quem foi. Quem não a admirou ou a admira hoje precisa conhecê-la e colocar essa admiração em prática. Obrigada pela música, pelas lições e por tantos ensinamentos que você, por este coração imenso, fez com que ficassem vivos e fossem aproveitados por mim e por tantos outros que não puderam viver aqueles anos com você. Obrigada pelo maior tesouro que você deixou: Maria. Obrigada por esse presente que nos alegra, nos enche a alma e nos inunda de paz.


Maria, obrigada por ter entrado na minha vida. Obrigada por ter encarado este desafio como cantora e filha. Obrigada por ser exatamente o que é e por ter tanto da sua mãe. Lições passadas por você e por ela fariam do nosso mundo um lugar melhor se fossem ouvidas e colocadas em prática.
Obrigada pela sua voz, talento, personalidade. Pelo sorriso que tanto revive sua mãe e pela gargalhada deliciosa que não nos deixa esquecer a carga de coisa boa que te foi transferida e que hoje nos é entregue da maneira mais nobre e linda que poderia ser. Obrigada por me trazer tantos amigos através da sua música, tantos momentos lindos, como os doo último fim de semana, que me fazem afirmar com orgulho: Elis Regina e Maria Rita me dão motivos pra ser fã e ostentar seus nomes por onde quer que eu passe.

Obrigada e eu AMO vocês.

















quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

entrar, sair, desorganizar...

Tempo longe das coisas é bom. Nada pra te fazer pensar ou "despensar" algo que você tenta (em vão) entender.
É engraçado o modo como as pessoas agem quando o assunto é entrar na vida dos outros. Ninguém pede pra fazer parte da sua (ainda que você, muitas vezes, implore pra que ela saia). Se acham no direito de entrar, mudar tudo, deixar aquela bagunça e as coisas jogadas pelos cantos e ir embora, assim, sem motivo, sem satisfação, sem um porquê. Já cantavam Cássia Eller e Nando Reis: "o que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou".
Não, isso não é indireta pra ninguém. Mas pode muito bem servir a várias pessoas que podem, por um acaso, ler isso.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

lunar, lunática... adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Lua Adversa, de Cecília Meireles

Esse poema tem ficado muito na minha cabeça. Não, nada tem a ver com dias de lua cheia, eclipses e tudo que os sites estampam por esses dias: é mais ligado ao que anda "estampado em interiores", mesmo. Mais especificamente, no meu.
Fases... de se esconder, se mostrar; se tornar grande e visível ou se camuflar entre as nuvens - que nunca deixam de estar. E assim segue: ela nunca precisou justificar ou nos fazer entender o porquê de suas fases e, no entanto, a beleza é sempre cativante e qualquer um consegue ser tomado por sentimentos puros, tão só obervando sua beleza com mente e coração abertos. Assim deveriamos ser nós, assim deveriam ser os que nos cercam.... simples e simplesmente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Da Vontade Repentina de Escrever (ou nem tão repentina, assim...)

Eu tenho uma dificuldade muito grande de falar sobre o que sinto, e sei que isso é algo comum aos seres humanos. As várias formas de se expressar são descobertas por cada um, a seu modo, a seu tempo: alguns escrevem; outros utilizam-se da música: simplesmente ouvindo ou transformando em letras aquilo que tem guardado em si; outros, simplesmente, calam-se... mas eu não consigo ser assim.
É uma mistura de vontades muito louca: uma vontade insaciável de expor esse turbilhão de pensamentos, vontades e visões, contraposta ao desejo de me calar e calar a vontade de que o mundo saiba de tudo que se passa aqui.
Não, eu não vejo a necessidade de colocar minha loucura expressa em textos para que ninguém entenda. Aliás, o que é compreensivelmente impossível, já que nem mesmo a dona desses pensamentos desordenados é capaz de organizá-los de forma objetiva (o que percebe-se, logo, ao tentar ler o que é colocado aqui).
Sentimentos são seus, e não cabe a mais ninguém tentar entendê-los.
Mas, por outro lado, existe a necessidade de colocar pra fora coisas que, por vezes, me deixam confusa, pensativa, que me instigam.
Gostaria de conseguir deitar, à noite, apertar o botão "stop" e, simplesmente, me desligar de tudo aquilo que ronda minha mente. Mas é aí que o contrario ocorre: tudo o que me é mais duvidoso e perplexo se reúne ali, quando eu coloco a cabeça sobre o travesseiro e tento, em vão, descansar. Pensamentos, ideias e inquietações paracem lutar por um espaço maior, espaço que nem mesmo é "configurado para suportar tantos arquivos de extensões diferentes dentro de uma mesma pasta". É, é como se fosse assim: eles brigam e se debatem, tentando tomar uma proporção maior, para conseguir ser pensado e, quem sabe, ser conduzido a uma conclusão lógica. Mas, em questão de segundos, se esvai e os outros tomam o lugar dele, confundindo-se, misturando-se, tonando-se ainda mais complicados.
É aí que mora o perigo. É aí onde se encontra a mais instigante necessidade de colocá-los em ordem, em algum lugar imaginavelmente mais organizado do que o espaço onde se debatem... anda que mais confuso e inútil pareçam.
Portanto, não escrevo com intuito de marcar, sensibilizar, impressionar. Isso é somente a manifestação de uma (entre tantas) das vontades loucas que me levam a lugares imagináveis e incopreensíveis.