Era aniversário de algum primo por
parte do pai, e lembro que estávamos reunidos na casa dele quando a mãe contou
pra todos os tios, cunhados dela, que você passou mal e foi internada em
Vitória (ou foi em Guarapari? Eu não sei... o fato é que aquele mês de janeiro
era esperado por vocês, já que iriam passar férias na praia). Que chato, diziam
eles: sair do interior, de onde era conhecida por todos, para passar mal lá,
longe de tudo. Era só uma falta de ar, a mãe me disse. Mas, logo naquela mesma
noite (ou noites depois) o telefone tocou e não era uma boa notícia. Não sei se
a notícia foi ruim só para mim, ou se a mãe tinha mesmo me contado toda a
verdade e também fora pega de surpresa com aquele telefonema. Aliás, digo logo,
a culpa é toda sua por eu ter ficado com um trauma danado de telefone tocando
depois das onze da noite: se tocasse e não fosse engano, seria notícia ruim, eu
bem sabia. Depois desse mês terrível, por anos, antes de dormir eu puxava a
tomada do telefone para que não pudesse tocar – como se o simples fio desligado
pudesse me poupar de alguma outra perda, mesmo que menos dolorida do que a sua.
Pela manhã, eu o conectava novamente à tomada e o dia seguia bem: sinal de que
tudo estava no seu lugar.
Eu também não consigo memorizar a
data certa – aquela data em que seu irmão foi lá em casa e disse que não tinha
mais jeito, mas que o tio não autorizava os médicos a desligarem a aparelhagem
para que você descansasse. 19, 20 ou 21 de janeiro? Todo ano eu tinha que pegar
aquela foto, distribuída na missa de sétimo dia. Lá a data não poderia estar
errada. Todo ano eu tirava a caixa de fotos antigas do armário da mãe e
procurava, lá no fundo, a foto em preto e branco, 3x4, em que você aparecia
séria, como se soubesse o que aconteceria meses depois. Achei uma injustiça sem
tamanho, aquela foto. Você séria e sem seus olhos claros, olhos que, para mim,
sempre foram “olhos da Xuxa” – ou a Xuxa tinha os seus olhos, eu não sabia qual
das duas opções. Outra injustiça era aquela foto tão triste no meio de uma caixa
que guardava tantos momentos bons. Eu não sei o porquê de ter sido guardada lá
desde que voltamos da sua casa, depois daquela semana pesada, assustadora e indescritível.
O que eu sei é que todo ano, quando esses dias se aproximavam, eu tirava a foto
da caixa, anotava a data num papel e o enfiava no bolso; guardava a foto lá
dentro para que ninguém soubesse que fora mexida. Nos primeiros anos, eu ia
sozinha à igreja rezar por você naquela data certa (meu Deus, a maldita data!).
Quando maior, ia às escondidas até a Casa Paroquial e pedia a Evinha que
colocasse seu nome nas intenções da missa. Eu nunca entendi por que fazia isso
“na surdina”, como diz a vó, e não avisava a ninguém. Talvez fosse por receio
de tocar no seu nome (nunca ninguém o fazia); talvez eu quisesse guardar isso
como um segredo nosso: você via que eu repetia isso todo ano e isso acabaria
virando uma coisa só da gente. À noite, quando liam seu nome na missa, eu me
lembro de erguer a cabeça e respirar fundo, como se quisesse mostrar respeito
ao ouvir seu nome. “Lembrai-vos, irmãs e irmãs, daqueles que foram viver junto
ao Pai...”. Aquilo me revirava o estômago.
Naquela noite chuvosa que o Tio Zé
foi contar que não tinha mais jeito... Ah! Me desculpa, não era o seu irmão!
Era o Tio. É que os fatos, as datas e a ordem correta deles se embaralham em
minhas lembranças... Prova disso é que pulei dessa noite direto para a missa de
sétimo dia. Me desculpa, tá? Eu não sei organizar isso tudo, por mais que eu
tente. Atropelo e troco as ordens, mas é que me orgulho bem mais de conseguir
guardar com clareza aqueles doze anos que passei ao seu lado. Como eu dizia,
naquela noite o pai chamou um táxi para que nos levasse até a roça, sua casa. O
Tio estava de partida para Vitória, já que o carro dele era grande o suficiente
caso precisasse carregar algo grande. Tanto faz, eu não quis saber o que era
esse “algo grande”. Só juntei algumas roupas e fiquei do lado de fora
aguardando o carro que nos levaria.
Eu estava acostumada a passar por
aquela estrada à noite, mas naquele dia tudo me pareceu muito mais sombrio. As
sombras que as árvores projetavam na estrada me assombravam e me diziam algo
que eu não queria entender. Chegando à frente da sua casa, de cara vi algumas
pessoas sentadas na calçada. A casa estava cheia e isso me incomodou. Mas eu
segui e não falei nada durante aquela noite. O dia seguinte se passou,
arrastado como a noite que o precedeu. Você fechou os seus olhos claros em
outro estado e isso gerou uma burocracia enorme para que te liberassem. No início
da madrugada seguinte, ouvi dizerem que o Tio Zé tinha chegado com você, e que seu
marido, sobrinho dele e irmão da mãe, veio dirigindo o carro de vocês atrás. Eu
estava no seu quarto. E a cena que eu vi nunca mais saiu da minha mente. Ao
ouvir a notícia, abri cuidadosamente a janela e vi o irmão da mãe com os dedos
entrelaçados, os braços apoiados sobre o teto do carro – aquele Gol vermelho,
que você tanto gostou – e com a cabeça caída sobre eles. Acho que ele não
chorava, só estava pensando em como encararia os três filhos ao entrar em casa,
sem você. Seguido a isso, a casa ficou quieta. As vozes se calaram e ouvi um
barulho de ferros batendo um nos outros e o vento soprava forte. Só depois eu
descobri que eram aqueles ferros que servem de apoio para o caixão. Abri a
porta do seu quarto e olhei pelo corredor à minha esquerda – que dava para a
sala, onde você havia sido colocada – e vi que havia muita gente. Madrugada longa,
perguntei a mãe se eu poderia ir lá para te ver. Ela fez um sinal afirmativo e
eu fui. A sala estava vazia, exceto por um vizinho qualquer que eu não conhecia
e isso me encorajou. Me aproximei do caixão e lá estava você: serena, com a
pele mais clara do que de costume. Eu nunca tinha te visto com os olhos
fechados... E foi estranho. Eu só tinha ido a um velório uma vez, mas não havia
chegado tão perto como eu estava de você. Timidamente, passei a mão sobre seus
cabelos que caíam pela testa. De leve. Não queria que minha mão sentisse o frio
do seu corpo quieto. Só os cabelos. E foi essa a última imagem que guardei de
você. Depois disso, saí de lá e ficamos na outra sala: eu e meus primos, seus
filhos, ouvindo as piadas do Tio João Gordo, que amenizavam um pouco aquelas
vozes que sussurravam pelos corredores da sua casa e comentavam a tragédia que
ali tinha se abatido.
Assim, a noite passou. Minutos
antes de sair o cortejo que te levaria, a Rúbia chegou. Ela é sobrinha do pai,
você sabe. Não tinha teu sangue – e nem eu, já que você era cunhada da mãe – e
nem tanta ligação, mas foi até sua casa. Alguém comentou que ela havia chegado
e fui ver. Ao me avistar, ela correu, me abraçou e disse: “Ah! Meu amor...”. E
eu desabei. Pela primeira vez, eu desabei. Chorava e algo doía. A sensação de
que por dentro eu estava toda revirada me atacou ainda mais durante aquele
abraço. Corri de volta para o seu quarto, ao lado da sua cama, e me joguei em
prantos sobre a cama que a mãe tinha feito para mim, no chão. Eu não quis ir ao
enterro. Chovia muito e a ideia de te ver descer àquele buraco me aterrorizava.
Me dei por satisfeita com a sensação dos fios grossos e ondulados do seu cabelo
na minha pele.
Passamos os sete primeiros dias na
sua casa. A mãe não queria deixar o irmão e os sobrinhos sozinhos, então
ficamos. Eu seu que pode parecer egoísmo, mas eu queria sair de lá o mais
rápido possível. As flores de plástico na sala, os enfeites sobre a mesinha do
aparelho de som, a cor dos sofás – tudo me lembrava você e a dor era sem
tamanho.
Eu não consigo lembrar como foram
meus dias depois dessa primeira semana e nem como as coisas foram voltando ao
normal. O que eu sei é que você me fez mais falta do que eu poderia imaginar e
que a saudade doía de um modo como eu nunca havia experimentado.
Até hoje abro um sorriso quando a
mãe conta que, no meu primeiro mês de vida, perguntavam se eu era sua filha: a
pele branquinha, os cabelos bem claros – embora, depois, os meus houvessem
escurecido. E isso me faz lembrar outra coisa engraçada: quando eu perguntei a
mãe se eu poderia ser neta do seu pai. Eu não conheci meus avôs e só Deus sabe
o que eu daria para ter tido tal felicidade; portanto, ser neta do seu pai
(logo do seu pai!) seria um sonho realizado. É... você não sabe o quanto eu
adorava aquelas vezes em que você me juntava aos seus meninos e me levava para
a casa dele. Ele e sua mãe não faziam distinção alguma entre mim e seus filhos,
e talvez por isso eu quisesse ser oficialmente adotada como neta deles. E
aquele terreiro em que seu tio lavava o café colhido?! Meu Deus, como eu ficava
maravilhada quando você levava a gente pra lá e fazíamos daqueles canos
enormes, que saíam das paredes de concreto do terreiro, nossa cachoeira.
Depois, você nos colocava na carroceria da velha Toyota azul e voltávamos para
a casa, como se estivéssemos passado o dia todo em clima de férias. E os
casamentos que aconteciam na roça? Eu me amarrava em saber que você sabia que
eu adorava os almoços que davam e me chamava, sempre, para que eu fosse com
você. E, cá entre nós, a gente se esbaldava, né? Você arrumava sempre um tronco
de árvore pelos quintais para que eu pudesse me sentar e deliciar toda aquela
comida.
A primeira vez em que você me levou para a roça sem a mãe – eu não dormia sem ela por nada! -, dela eu me lembro bem. A gente chegou na sua casa e chovia, o que foi um prato cheio para que eu e os meninos corrêssemos para fora e fizéssemos uma guerra de lama como eu jamais havia feito. Ai, que bronca você nos deu! Chegou o rosto na janela, franziu as sobrancelhas claras e gritou para que a gente corresse logo pro banho: “onde já se viu?!”... Hoje dou risada, mas naquele dia você me deixou com um medo sem tamanho! Eu nunca te falei, mas essa sua bronca fez com que eu tivesse ainda mais vontade de voltar para casa. E foi o que eu fiz. No dia seguinte, a vó me levou de volta. E você insistiu para que eu ficasse, e eu sabia que era de coração e nem isso me prendeu. É muita lembrança guardada. Ah! Você me ensinou a bordar e, depois de algumas aulas, me deu uma toalha de mesa que você começou a fazer. Me disse para continuar, fazer o que faltava e te mostrar. Daí, você finalizaria o crochê – eu nunca aprendi, esse – e a toalha estaria pronta. Estou sem graça, mas vou te contar: aquela toalha está guardada. Eu nunca mais tive coragem de pegar e terminar. Quem a bordaria depois? Eu achava que terminar aquilo seria até falta de respeito. Hoje eu vejo que terminá-la seria dolorido. Mas suas aulas não foram em vão, tá? A Bruna, minha prima, teve dois filhos lindos, e a segunda filha, Diana, dela eu sou madrinha. No dia do batismo, dei a ela de presente um quadro grande, com a oração do Anjo da Guarda. Eu, orgulhosa, disse que havia feito sem a ajuda de ninguém. Que eu tinha feito todo o trabalho em ponto cruz porque você me ensinou um dia. Viu? Eu não terminei a sua toalha, mas consegui finalizar algo que justificasse aquelas tardes em que eu passava te atormentando para que me mostrasse como se fazia.
A primeira vez em que você me levou para a roça sem a mãe – eu não dormia sem ela por nada! -, dela eu me lembro bem. A gente chegou na sua casa e chovia, o que foi um prato cheio para que eu e os meninos corrêssemos para fora e fizéssemos uma guerra de lama como eu jamais havia feito. Ai, que bronca você nos deu! Chegou o rosto na janela, franziu as sobrancelhas claras e gritou para que a gente corresse logo pro banho: “onde já se viu?!”... Hoje dou risada, mas naquele dia você me deixou com um medo sem tamanho! Eu nunca te falei, mas essa sua bronca fez com que eu tivesse ainda mais vontade de voltar para casa. E foi o que eu fiz. No dia seguinte, a vó me levou de volta. E você insistiu para que eu ficasse, e eu sabia que era de coração e nem isso me prendeu. É muita lembrança guardada. Ah! Você me ensinou a bordar e, depois de algumas aulas, me deu uma toalha de mesa que você começou a fazer. Me disse para continuar, fazer o que faltava e te mostrar. Daí, você finalizaria o crochê – eu nunca aprendi, esse – e a toalha estaria pronta. Estou sem graça, mas vou te contar: aquela toalha está guardada. Eu nunca mais tive coragem de pegar e terminar. Quem a bordaria depois? Eu achava que terminar aquilo seria até falta de respeito. Hoje eu vejo que terminá-la seria dolorido. Mas suas aulas não foram em vão, tá? A Bruna, minha prima, teve dois filhos lindos, e a segunda filha, Diana, dela eu sou madrinha. No dia do batismo, dei a ela de presente um quadro grande, com a oração do Anjo da Guarda. Eu, orgulhosa, disse que havia feito sem a ajuda de ninguém. Que eu tinha feito todo o trabalho em ponto cruz porque você me ensinou um dia. Viu? Eu não terminei a sua toalha, mas consegui finalizar algo que justificasse aquelas tardes em que eu passava te atormentando para que me mostrasse como se fazia.
Ai, como sinto saudade! Eu acho
que já não choro mais – exceto há uns três anos, quando sua filha se casou e,
repentinamente, chorei feito criança no meio da festa. Eu disse para a vó que
era dor de cabeça, que logo passaria. Mas o que eu senti, ali, foi sua
presença. E nunca tinha sido tão forte, desde que você se foi. Depois disso,
acho que não chorei, só senti mesmo saudade. E esse “só” é tão grande quanto os
gritos que você dava no terreiro quando a gente aprontava.
Eu só tenho duas fotos suas – em
péssima qualidade, nem dá para ver seus olhos! – e sempre quis pedir a vó que
pegasse alguma e me emprestasse, sem ninguém ver, para que eu copiasse. Aliás,
meu pedido seria ainda mais específico: eu queria uma foto do seu casamento. Eu
lembro que você me mostrou uma em que sorria, sorria de verdade, e o seu queixo
ficava marcado pelo sorriso repuxando a pele, e você estava fazendo uma pose
como de quem estava prestes a sair do carro... Eu nunca pedi, é verdade. Não
tenho coragem. Mas sabe o que eu fiz? Da última vez em que fui ver seus pais (a
dor de cada lembrança sua nos cantos daquela casa tão simples, no meio do mato,
porém, tão aconchegante ainda dói do mesmo jeito, mas eu ainda continuo
visitando os dois, viu?), eu aproveitei um minuto de distração da sua mãe para
tirar foto de um desenho seu que ela tem na parede. E o desenho foi feito por
alguém que tinha em mãos aquela mesma foto 3x4 da bendita lembrança da missa.
Pelo menos ele colocou a sua blusa num tom rosado, a pele corada. Mas isso não
substitui a foto que eu tanto queria.
As coisas praquele lado não
ficaram muito boas, sabe? Em nada aquilo se parece com a época em que eu tinha
você. Desde mudanças na arrumação da sala até as desavenças... às vezes, não
mais reconheço lá aquele lugar que me fez tão feliz. Mas essas coisas
acontecem, né?
Só queria mesmo dizer que eu sinto
saudade. Eu sempre me esbarro em alguém na rua com os seus olhos, seu jeito de
andar, seu cabelo. Bate uma saudade e eu quase consigo sentir seu cheiro. Mas
logo a sensação passa e a vida volta. Sem você. E eu sigo sentindo sua. Você
sempre comentava que tinha curiosidade de saber como seríamos depois dos
dezoito, vinte anos. Não sei se o que eu me tornei te deixaria feliz ou, pelo
menos, satisfeita. O que eu sei é que a dor por você não poder ver é tão grande
quanto a minha vontade de te contar tudo que me acontece, contar tudo, sentada
lá àquela mesa do café, ouvindo sua gargalhada deliciosa.
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