sábado, 19 de janeiro de 2013

Da senhorinha de décadas distantes

Uma das minhas maiores distrações – ou diversões, como queiram – sempre será observar as pessoas. Em todos os lugares, de todas as idades. O ser humano é algo muito curioso e engraçado para passar despercebido diante dos meus olhos. É uma distração tão natural quanto o ato de respirar. Quando percebo, estou encarando alguém e achando muita graça no que qualquer pessoa não vê coisa alguma.
Pois bem: hoje de manhã resolvi ir ao mercado. Filas cheias, corredores abarrotados e aquela confusão de mercado num sábado de manhã. Estava empurrando o carrinho e procurando um caixa que estivesse mais vazio. Ou menos cheio, pelo menos. Foi quando vi uma senhorinha na fila e, imediatamente, me coloquei atrás dela, mesmo a fila dela estando consideravelmente maior.
Durante minhas observações, encontrar pessoas parecendo personagens saídos de livros ou filmes de que eu gosto tanto é tão encantador quanto ver, ao acaso, uma estrela cadente ao se observar o céu com um telescópio. E a senhorinha se encaixava nisso.
Ela aparentava ter seus 80 anos. Os cabelos bem grisalhos, mas com algo ainda de cor. A pele clarinha, marcada por décadas, e o queixo bem desenhado, como se feito à mão. Usava óculos grandes, com duas lentes muito grossas, mas que me permitiram ver os olhos azuis cristalinos. Usava um vestidinho de algodão, cor marrom; muito florido, porém bem discreto. As meias eram de um azul bem escuro, parecidas com as meias que meu pai usa quando está vestido de modo muito social – contrastando fortemente com os chinelinhos pretos, abertos atrás (ou que ela não calçava corretamente, pisando no que seriam as correias... não consegui ver bem). O perfume que ela exalava parecia extraído de uma sala antiga, decorada com móveis de madeira maciça e cortinas empoeiradas. Ela segurava o carrinho de compras, cheio de pães. Só pães: franceses, doces, com creme, de milho, torrados. Consegui imaginar a senhorinha, toda fofa, recebendo os netinhos, num sábado à tarde, com a mesa repleta daquelas gostosuras. Ou as amigas, talvez, para colocar em dia a conversa e relembrar tantas coisas já vividas. O fato é que eu não conseguia tirar os olhos dela. Não sei qual o tipo de encantamento ela exerceu sobre mim, mas aquela figurinha parecida com personagem de uma narrativa de época fez com que os dez ou quinze minutos que passei em pé na fila do mercado me fizessem viajar num piscar de olhos. E ela percebeu algo. Olhou fixamente, com uma mão segurando a bengala e a outra o puxador do carrinho, e me deu um sorriso agradável, leve, como o de uma quase-avó-desconhecida no alto de sua terna e automática doçura.

Um comentário:

  1. É... os personagens desse mundo não escapam mesmo ao seu senso de observação. Imagino agora essa mesma senhorinha chegando em casa e contando para os netos: "Hoje eu tava na fila do mercado e tinha uma moça na fila atrás de mim..." rs

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